Agora · Reação · 3 de setembro de 2026

Antes do feed, a primeira página
Danny Boyle abre Veneza com a história de origem, em 1969, da economia da atenção — uma primeira página onde todos continuamos a fazer scroll.
O que aconteceu. Na quarta-feira, 2 de setembro, o 83.º Festival Internacional de Cinema de Veneza abriu com a estreia mundial de Ink, o novo filme de Danny Boyle sobre o nascimento do tabloide moderno. Guy Pearce interpreta um jovem Rupert Murdoch; Jack O’Connell é Larry Lamb, o editor que Murdoch contratou em 1969 para reconstruir um moribundo jornal de grande formato chamado The Sun e fazer dele o jornal que ninguém na Grã-Bretanha conseguia largar. O argumento é de James Graham, que adapta a sua própria peça de teatro de 2017. A estreia valeu uma ovação de pé de cinco minutos e, na mesma noite, George Clooney recebeu o primeiro Leão de Ouro de Carreira do festival. O festival decorre até 12 de setembro.
As críticas chegaram depressa e, na maioria, foram calorosas. A crítica da Time, Stephanie Zacharek, chamou-lhe «uma obra de cinema ousada e divertida» e descreveu o filme como «um retrato ficcionado de um mundo perdido e uma exploração forense do que acontece quando se dá às pessoas o que elas querem, em vez daquilo que não sabem que querem». O seu veredicto final sobre a história que o filme conta: «É um filme sobre o princípio de um fim, provocado por homens empreendedores que só queriam vender jornais.»
Porque importa. É fácil ver Ink como um filme de época, todo ele chumbo quente e pubs de Fleet Street. É mais difícil, e mais honesto, vê-lo como uma história de origem dentro da qual ainda vivemos. O que Lamb e Murdoch perceberam em 1969 — que a primeira página vencedora é a que é engenhada para ser irresistível, renovada todos os dias, afinada pelo apetite e não pela importância — é hoje a lógica de funcionamento de cada feed que trazemos no bolso. O tabloide foi o protótipo. O scroll é o produto.
O próprio Boyle traçou essa linha até ao presente. Questionado na conferência de imprensa de Veneza sobre inteligência artificial e imprensa, disse: «Vão conseguir substituir jornalistas. Será que esse jornalista de IA vai dizer a verdade ao poder que o criou?» Uma pergunta justa, vinda de um realizador cujo filme é, no fundo, sobre o que acontece quando quem decide o que lemos decide apenas pelo que vamos agarrar.
Nada disto exige um vilão, e o filme, ao que consta, resiste a criar um. Murdoch e Lamb não obrigaram ninguém a comprar o The Sun. Limitaram-se a encontrar o caminho mais curto para aquilo que as pessoas já queriam — e a pavimentá-lo. Cinquenta e sete anos depois, esse caminho está tão liso que a maioria de nós já vai nele antes do pequeno-almoço.
Vale a pena parar. A frase de Zacharek é a que merece demora: a diferença entre o que queremos e o que não sabemos que queremos. Todos os algoritmos do mundo são hoje especialistas na primeira categoria. Medem o toque, o olhar que se demora, a segunda dose. Mas a segunda categoria — o livro de que não sabíamos precisar, o silêncio de que não sabíamos ter saudades, a pergunta que nunca teríamos escrito numa barra de pesquisa — não se mede, porque só aparece quando o agarrar pára. Uma primeira página, ou um feed, pode dizer-nos o que fomos buscar. Só uma pausa pode dizer-nos do que tínhamos realmente fome. Talvez seja esse o argumento mais silencioso de Ink: a máquina que nos dá o que queremos foi inventada muito antes do smartphone, e a saída sempre foi a mesma.