Selah

Agora · Reação · 3 de setembro de 2026

Quando o refúgio precisa de refúgio

Os Montes Nuba, no Sudão, absorveram perto de um milhão de pessoas em fuga da guerra civil; agora a violência subiu a montanha, e a igreja local responde num registo improvável.

O que aconteceu. Durante a maior parte da guerra civil do Sudão — que vai no quarto ano, com dezenas de milhares de mortos e mais de 12 milhões de deslocados — os Montes Nuba, no Cordofão do Sul, eram o sítio para onde as pessoas fugiam, não de onde. A região absorveu perto de um milhão de pessoas que escapavam aos combates; quase metade da sua população é cristã. Esse refúgio está a desfazer-se. A 31 de agosto, o Religion News Service noticiou que a violência chegou às próprias montanhas, a alastrar em torno das localidades-chave de Kauda e Heiban, com igrejas que serviam de abrigo atacadas ou ocupadas para uso militar.

A cadeia de acontecimentos é curta e tem datas. 19 de junho: um padre católico, o padre Youhanna Al-Amin, e um dos guardas da sua igreja foram mortos a tiro na paróquia da Santa Cruz, em Kauda. 24 de julho: o reverendo Adel Idris Jongool, padre episcopal, foi morto perto do seminário anglicano de Debi. No final de julho, dois líderes da Igreja Sudanesa de Cristo foram raptados e mais tarde libertados. Em agosto, quatro trabalhadores humanitários da Samaritan’s Purse foram detidos e libertados dois dias depois, enquanto Najwa Musa Konda, trabalhadora humanitária cristã detida desde 1 de abril, continua sem contacto com a família. «Não temos notícias dela desde a detenção, porque estamos estritamente proibidos de a visitar», disse um familiar à Morning Star News a 24 de agosto.

Os atacantes não são um exército estrangeiro. São, na maior parte, uma fação dissidente do SPLA-N, o movimento rebelde que governa as montanhas — cerca de 1.500 combatentes amotinados, segundo relatos partilhados com o Anglican Ink —, enquanto a guerra nacional entre o exército do Sudão e os paramilitares da RSF aperta a partir de fora. Todos os envolvidos afirmam estar a defender alguém.

Porque importa. A igreja dos Nuba é uma das histórias discretas de crescimento do cristianismo mundial. Em 2002, a diocese anglicana de Kadugli contava cerca de 5.000 membros em dez congregações; hoje são mais de 60.000 em mais de 150 igrejas, construídas sob uma década de bombardeamentos aéreos. E o seu instinto, agora que as armas se viraram para dentro, merece atenção. O bispo Elsir Hassan Kuku, de Heiban, escreveu às agências parceiras que a igreja «iniciou esforços renovados no nosso programa de paz e reconciliação», dialogando com todas as partes do conflito e pedindo oração e apoio prático enquanto trabalha por «paz, reconciliação e restauração». Quase nada disto chegou à imprensa anglófona de grande circulação.

Vale a pena parar. O refúgio nunca foi realmente a geografia. Montanhas escalam-se; também se levantam bloqueios nas estradas de montanha. O que fez dos Nuba um refúgio foi uma comunidade que continuou a receber pessoas — e, quando o terreno deixou de ser seguro, o seu primeiro gesto não foi um muro, mas um programa de reconciliação. A diferença entre um esconderijo e um abrigo é que um abrigo é a prática diária de alguém. Vale a pena perguntar o que é que, na nossa própria vida, temos confundido com terreno.