Selah

4 de setembro de 2026 · Salmo 23

Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas. Refrigera a minha alma.

Salmo 23:2–3a (Almeida Revista e Corrigida)

Ordens do médico

O pior paciente na semana de qualquer fisioterapeuta é um corredor. A receita não podia ser mais simples — seis semanas sem apoiar a perna — e quase ninguém a cumpre. Testam o joelho à segunda semana, correm à terceira, rasgam tudo outra vez à quarta. Para um corpo construído sobre o embalo, descansar sabe a perder terreno. Há pacientes que têm de ser mandados parar.

O Salmo 23 usa um verbo estranho. Não convida, não sugere. Faz. Deitar-me faz. Quem escreveu aquilo conhecia as próprias pernas: deixadas à solta, continuam a andar. A produzir, a provar, a empurrar a lista de tarefas de um lado para o outro. O descanso raramente parece uma escolha — parece ficar para trás. Por isso às vezes chega disfarçado de algo com que não dá para discutir. Uma gripe. Um voo cancelado. Uma semana em que nada funciona.

Repara onde o salmo põe a restauração. Não num cume, não a meio de uma conquista — junto a águas tranquilas. Do tipo raso e calado. Sem espuma, sem estrondo, nada que parasses para fotografar. Do tipo por que passarias a caminho de algo mais impressionante — e é exatamente por isso que terias de ser levado até lá. Se alguma coisa te está a obrigar a parar agora, senta-te com uma possibilidade desconfortável: pode não ser o obstáculo. Pode ser o pasto.

Uma pergunta

Que descanso estás a recusar neste momento?

Uma oração

Se esta paragem és tu a levar-me a algum lado, eu deito-me.