Ó minha alma, espera somente em Deus, porque dele vem a minha esperança. Só ele é a minha rocha e a minha salvação; é a minha defesa; não serei abalado.
Salmo 62:5–6 (Almeida Revista e Corrigida)
A porta das chegadas
Ninguém na zona das chegadas de um aeroporto está a fazer alguma coisa. Ficam de pé, olhos nas portas de correr, o café a arrefecer na mão. Por qualquer métrica de produtividade, é tempo perdido. Mas ninguém ali lhe chamaria vazio. Aquela espera tem um rosto do outro lado.
É esse o silêncio do Salmo 62. Quem escreve não está a esvaziar a cabeça nem a correr atrás de calma. O silêncio dele aponta para algum lado. Tem uma morada. Ele cala-se como te calas diante daquelas portas — porque falar não vinha ao caso, e porque vem aí alguém.
A maioria de nós trata o silêncio como uma falha no sinal: auscultadores no caminho, telefone na fila, tudo menos o zumbido da própria cabeça. Talvez seja porque o nosso silêncio não está virado para nada, e um silêncio virado para nada sabe a queda. Experimenta hoje um bocado de silêncio virado para algum lado. Não precisas de ter a certeza de que alguém vai atravessar as portas. As pessoas nas chegadas também não têm — os voos atrasam-se, os planos mudam. Ficam na mesma. Esperar é só a esperança, parada de pé.
Para onde está virado o teu silêncio?
Se há alguém do outro lado deste silêncio, eu espero.